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CONVERSA
COM YVES LAVANDIER
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A quem pensava se dirigir
ao escrever A dramaturgia ?
Em prioridade para os dramaturgos e roteiristas. Mas também
para os parceiros nas artes da dramaturgia: atores, diretores, produtores,
desenhistas (no caso do desenho animado ou das histórias em
quadrinho), etc. E a todos aqueles que, curadores, seletores, jurados
ou leitores, concedem ou recusam subvenções baseados
na leitura dos textos dramáticos sem, muitas vezes, possuir
competências para fazê-lo. E afinal, tendo concebido A
dramaturgia como uma leitura acessível, creio que ela
pode interessar todos os espectadores curiosos de melhor entender
o teatro, o cinema ou a história em quadrinho, assim como as
relações que essas artes mantêm com a vida.
O grande princípio
do livro é a modelagem.
De fato. Examino a obra dos grandes autores dramáticos,
sem elitismo - trato Anton Tchekhov bem como Lowell Ganz e Babaloo
Mandell - e tento responder três perguntas: 1) do que são
feitas as obras dramáticas? Por que são feitas de tal
forma? E o que é necessário para se escrever uma? A
questão do por que sempre me pareceu capital. Creio que não
podemos nos contentar em dizer: "Vejo isto no repertório,
portanto deduzo uma regra". Prefiro dizer: "Vejo isto no
repertório; me pergunto o porquê e se acho que a razão
desta presença é válida e lógica então
deduzo uma regra". Chego a pensar que quanto mais a justificação
carrega sentido, mais o mecanismo descrito tem chances de ser justo
e útil.
Cerca de 1.400 obras
são citadas como exemplo: peças de teatro, óperas,
longas-metragens, curtas-metragens, sketches, episódios de
seriado de televisão, álbuns de história em quadrinhos.
O volume é enorme.
Sim, pode parecer muito. Veio assim e
eu não me freei. Ao contrário, quis propor ao leitor
uma grande viagem no repertório dramático. Isso dito,
existe uma pequena centena de obras que são mais recorrentes.
Convido aliás vivamente o leitor a conhecer um mínimo
dessas obras antes de ler A dramaturgia (ver
a lista completa). Isto tornará nossa viagem ainda
mais enriquecedora.
Há inclusive
referências ao circo.
Gosto muito do circo. É um lugar onde a dramaturgia tem seu
lugar, e não só nos sketches de palhaço.
Como nasceu A dramaturgia
?
Entre 1983 e 1985, estudei cinema na Columbia
University, em Nova York. Aprendi muito, especialmente sobre a redação
de roteiro e direção. Também filmei numerosos
curtas-metragens. Voltei pra França no verão 1985. Comecei
a ganhar a vida como roteirista. Em seguida, em 1987, comecei a animar
oficinas de redação. A idéia de base é
fazer os participantes escreverem, sem dúvida; mas eu reservava
uma pequena parte teórica. Rapidamente, meus alunos me pediram
para botá-la à limpo. O resultado inicial, foi uma apostila
de oito páginas. Seria o primeiro esboço do que viria
a se tornar A dramaturgia. Ainda a guardo comigo esse
livreto. Mas foi somente quando a apostila ultrapassou o número
de cem páginas, que a idéia me ocorreu de fazer um livro.
A dramaturgia é portanto fruto dos meus estudos
do cinema, das minhas atividades de roteirista, dramaturgo e pedagogo
e de bons vinte anos de alimentação cultural.
A obra poderia ter sido escrita por outro que não fosse
um autor dramático?
Certamente não da mesma forma. O fato de conhecer internamento
processo da escrita dramática influenciou obrigatoriamente
a minha visão.
Sentimos, através
de seus exemplos, que o cinema é mais presente na sua formação
do que o teatro. São citados as grandes peças do repertório,
mas não muita coisa sobre o teatro contemporâneo, digamos
a partir de 1950.
Não é totalmente verdade. Amadeus, À
espera de Godot, Roberto Zucco e Por tudo
e por nada fazem parte das 80 obras de referência e
cito outras peças contemporâneas em exemplo de forma
mais pontual. Penso em L'atelier, Célimène
et le cardinal, Le chant de la baleine abandonnée,
Croisades, Elvire Jouvet 40, Mamie
Ouate en Papoâsie, Rinoceronte, Traição.
Falo também com muita freqüência de Entre
quatro paredes, Morte de um caixeiro viajante,
A vida de Galileu que são peças muito
modernas, mesmo não sendo consideradas estritamente contemporâneas.
Por outro lado, eu mesmo escrevi algumas peças, essencialmente
teatro de fantoches, e dirigi para o teatro. Como anedota, já
até fiz o papel do Mensageiro em uma encenação
de Antígona, de Jean Anouilh, em Nova York. Então
conheço o teatro ao mesmo tempo como espectador e como artista.
Mas reconheço que minha atividade principal é orientada
para o cinema e que vou mais ao cinema do que ao teatro. Tenho também
a impressão que apesar de sua jovem idade, o cinema permite,
mais e melhor, brincar com os mecanismos da narração
dramática, do que o teatro. Tudo isso explica talvez esta impressão.
Então, digamos
que não há em seu livro muita coisa sobre o teatro experimental
destes últimos anos.
É verdade, já fui criticado por isso. Mas a verdade
é que também não há no meu livro muita
coisa sobre o cinema experimental. E não por uma questão
de data. A cantora careca que data de 1950 é
mais experimental que Roberto Zucco escrito quarenta
anos mais tarde. A dramaturgia não é uma
enciclopédia sobre as artes da dramaturgia, com a obrigação
de comentar exaustivamente todas as formas de teatro, desde Thespis
à Bob Wilson, passando pelos jatos de ovos podres em Nanterre
nos anos 70. Trata-se de um tratado sobre os mecanismos aristotélicos.
Defendo uma dramaturgia aristotélica por várias razões
importantes, a principal sendo que a vida (humana ou outra) é
ela mesma aristotélica. A visão de Aristóteles
ao funcionamento humano, seja ao nível do biológico
e do sociológico, seja ao nível do psicológico.
Apesar de (ou posteriormente a) Freud, a AIDS, a bomba atômica,
os crimes contra a humanidade, o world wide web, a amizade franco-alemã,
os videogames, os atentados de 11 de setembro de 2011, e sabe-se lá
mais o quê, o fato é que este funcionamento não
mudou desde os contemporâneos de Eschyle. Alguns assuntos e
alguns obstáculos mudaram, sim, mas não o jeito de vivê-los
no mais fundo de nós mesmos. Enfim, A dramaturgia
é um livro sobra a forma de contar uma história simples
com um começo, um meio, e um fim, o que, cá entre nós,
já é consideravelmente difícil. Os que pensam
que é melhor conhecer as regras antes de infringi-las podem
ver utilidade na leitura do meu livro. Os outros não precisam
de nada para fazer algo de genial.
Sentimos que não idolatra ninguém. Mesmo Hitchcock,
por quem tem admiração, tem direito à algumas
reservas. Ou Quanto mais quente melhor.
Sim, ou O Cid, Tartufo, Hamlet
e muitos outros. Penso que não há obra ou autor intocável.
Entendo que isso possa incomodar. Muitos amadores têm tendência
à fabricar um panteão e a não mais o questionar.
Eles se esforçam em seguida para tudo justificar em seus deuses,
inclusive suas fraquezas, contanto que não se toque no que
se tornou sagrado. Ele provavelmente aprecia que as obras de arte
não sejam perfeitas. Mas algumas, inclusive no panteão,
ganhariam em ser mais coerentes. Acho muito saudável não
estar nem preso à um panteão e nem submisso ao fascismo
dos "especialistas" e manter a autonomia mental de emitir
reservas sobre os "clássicos". A meu ver, as duas
palavras chaves, mesmo, os dois valores chaves são "autonomia"
e "autenticidade". Ser autêntico, é estar em
acordo com seu eu profundo e com seu sentimento. tantos cinéfilos
gostam de algumas obras porque lhes foi dito que deviam gostar delas.
Sobre A mulher que viveu duas vezes, um leitor veio
à mim um dia e me agradeceu calorosamente. Entendi imediatamente
do que estava falando. Ele nunca tinha ousado dizer que achava este
filme chato. Os "especialistas" afirmavam que era uma obra-prima
e que se não gostássemos de A mulher que viveu
duas vezes (ou A regra do jogo ou Vida
moderna ou Providence, éramos então
taxados de imbecis e incultos. Com A dramaturgia, tenho
vontade de dizer aos leitores: não se deixe desviar do essencial,
nem por mim nem pelos outros. O que conta, é ser autêntico
e autônomo.
Aconteceu de citar
obras ou autores para agradar os outros, gregos e troianos?
Não, de modo algum. O repertório é tão
repleto de exemplos eloqüentes que posso me dar ao luxo de citar
as obras que aprecio.
A dramaturgia é
então um livro subjetivo.
Absolutamente! E como poderia não ser? Penso que lendo A
dramaturgia se aprende tanto sobre minha pessoa, quanto sobre
os mecanismos da narrativa. Sobre a importância que concedo
à infância, às emoções, ao humor,
ao desenvolvimento pessoal. Sobre minhas necessidades de sentido e
estrutura, que beira a neurose. Por isso convido cada leitor à
tomar aquilo no que encontra um eco dentro de si, o que pode ajudá-lo,
e a deixarem o resto. Enfim, mais uma vez, a serem autônomos.
O leitor que mais me assusta não é o que não
gosta do meu livro, é aquele que o adora incondicionalmente,
sem personalidade, sem espírito crítico. É aliás
verdade para todos os livros e todos os sistemas. Dito isto, aquele
que o odeia sem tê-lo lido - He sempre alguns assim - também
não chega a ser o que espero.
Seu leitorado é
repartido de forma igual entre profissionais do audiovisual e profissionais
do teatro?
Acredito que não. Primeiro tenho os amadores e os
profissionais da história em quadrinhos entre meus leitores.
Depois, é provável que o cinema prevaleça. Por
várias razões: ele é mais freqüentado e
fascina mais do que o teatro. Isso pode ser lastimável, mas
é fato. E, no entanto, que A dramaturgia permite a alguns cinéfilos
ou amantes de história em quadrinhos descobrirem Sófocles,
Ibsen ou Brecht, me deixa encantado. Há uma riqueza e uma humanidade
extraordinária dentro do repertório teatral. Idem se
meu livro conduzir profissionais do teatro a descobrirem Taniguchi
ou Os Sopranos.
Em seu livro, são
utilizadas muitas expressões como "ainda que", "dito
isso", "contudo", "por outro lado".
É verdade. Deve ser meu lado esquizofrênico
[risos]. Na verdade, adoro convicções, sejam as minhas
ou as dos outros, mas tenho muito medo das certezas. Então
quando tomo uma posição clara e determinada, me interesso
freqüentemente pelos contra-exemplos, por todos os elementos
que irão nuançar meus propósitos, torná-los
menos simplistas. Gosto de exceções. Elas participam
da riqueza e sutileza das regras. Contudo, insisto que o único
meio de complexificar, ao meu ver, é partindo de uma base unívoca,
para não correr o risco de tornar o pensamento complicado,
e não complexo. É, aliás, dessa maneira que,
penso, deveríamos escrever uma obra dramática: partindo
de uma base simples.
Já foram vendidos 25.000 exemplares
da versão francesa de A dramaturgia, que já foi
traduzida em italiano (L'ABC della drammaturgia), em espanhol
(La dramaturgia), em inglês (Writing drama) e
agora em português. Tal sucesso era esperado?
Eu senti no começo dos anos 90 que o que iria se tornar A
dramaturgia era apreciado sob sua forma de folheto e servia
como ferramenta de apoio. Acreditei então no longo termo.
A que é atribuído o
sucesso de A dramaturgia?
Essencialmente, ao boca-a-boca.
O fato de ter dirigido uma primeira
longa-metragem (Oui,
mais...)
mudou sua maneira de considerar o trabalho de autor dramático?
Não muito pois eu era roteirista e diretor (de
curtas-metragens) e até diretor de teatro de fantoches antes
de escrever A dramaturgia. Então não podemos
dizer que passei da teoria para a prática. A direção
de Oui, mais
confirmou coisas que eu já
sabia por já as ter vivenciado nos meus curtas-metragens. Confirmou,
por exemplo, que a passagem do texto à imagem e à encenação
por atores muda a percepção do roteiro e pode levá-lo
a ser reescrito durante todas as etapas da fabricação
do filme, da preparação à mixagem passando pela
filmagem. Sugiro os francófonos a edição
do roteiro de Oui, mais
que conta justamente
o processo de reescrita durante filmagens e montagem do filme.
É dito que julgar
os outros, mesmo que de forma construtiva, nunca o deixou muito à
vontade.
Sim, porque julgar os outros é se colocar numa posição
de superioridade, o que já me parece um contra-senso! Aqueles
que produzem sentido, prazer e emoções, ainda que não
acertem , me parecem bem acima daqueles que produzem julgamentos.
Sei muito bem que um artista que oferece ao público seu trabalho
se expõe aos comentários, é a regra do jogo.
Isso não impede que a posição de juiz me é
desconfortável e que prefiro a de autor. Paradoxalmente, esse
lugar me parece mais humilde. É aliás por isso que me
esforço em ser mais construtivo e entusiasta em A dramaturgia
e de não cair na crítica baseada em gosto pessoal. Penso
enviar muito mais ondas positivas que negativas.
É dito também
que com Oui, mais
foram aplicadas as lições
que são dadas em A dramaturgia mas que é mais
fácil falar do que fazer.
Sim, isso não é uma grande descoberta. Embora
em meus roteiros eu tenho algumas falhas eu denuncio em meu livro,
penso ter respeitado uma boa parte das regras. Em todo caso, eu tento.
O que posso dizer é que escrever A dramaturgia e
animar os ateliês de redação me ajudaram a me
tornar um melhor autor dramático, ou um menos ruim, se preferirem.
Isso, é indiscutível. E mais, continuo a aprender. Atualmente,
aprendo muito sobre o trabalho de caracterização. E
sobre a metodologia. Acredito cada vez mais nos estados modificados
de consciência. Não só para afinar a consciência
da minha vida mas também para desbloquear uma escrita. Quando
fico preso em uma cena ou na busca de uma idéia específica,
no lugar de obstinar-me, vou correr. Frequentemente, a resposta vem
sozinha, destilada na endorfina.
O que pensa ter errado no roteiro
de Oui, mais
que poderia chocar o autor de A dramaturgia?
Tenho a intuição de ter errado coisas mas não
é fácil ter uma perspectiva global do seu bebê.
É mais fácil diagnosticar o trabalho alheio! Penso que
errei na caracterização da mãe. Não a
amei o suficiente, não a entendi o suficiente, não a
levei a sério o suficiente. Preferi zombar dela. Pensei evitar
uma queda no patológico ou ser demasiado pesado, mas na realidade,
com o recuo, percebo que me deixei levar pelo acerto de contas, o
que não é uma boa idéia em dramaturgia. Há
de se amar e perdoar todos os personagens. Neste contexto, a missão
de Alix de Konopka não foi fácil e lhe sou grato pelo
que ela me ofereceu.
Em A dramaturgia, é
explicado que o diálogo deve ser reduzido ao mínimo
e que é a mais fraca ferramenta para passar informações.
Todavia, Oui, mais
inclui muitos diálogos.
O diálogo é a parte emergente do iceberg, inclusive
no teatro. Uma profusão de diálogos, não significa
que não há nada mais além dele. Em O jantar
de palermas, Doze homens em fúria e Autópsia
de um crime, temos muitos diálogos. Mas há também
todo um trabalho de estrutura e de caracterização. Também
é o caso em Oui, mais
.
Sejamos claros, não me comparo aos grandes. O cito para dizer
que, até com eles, "muitos diálogos" não
significa "apenas diálogos". Se é verdade
com eles, pode ser verdade com os outros, seja qual for o seu nível.
Sobre o diálogo, hesito, entre uma posição delicada
para defender, e freqüentemente mal entendida. E, para melhorar
as coisas, o diálogo que, de fato, é a linguagem menos
potente da dramaturgia, é, ao mesmo tempo, uma ferramenta super
valorizada e subestimada. Super valorizada por alguns (os adoradores
de Sacha Guitry, Michel Audiard, etc. além dos autores de telenovelas
medíocres) e subestimada por outros (todos os que só
juram pela imagem). Não se deve descansar sobre os diálogos
o que torna uma cena artificial e soa falso. Ou ainda, contamos uma
história de sobrevivência na qual estamos no nível
mais baixo das necessidades humanas, no nível animal. Relembro,
além disso, que os diálogos (as vezes, muitos diálogos)
já estavam presentes nos filmes ditos "mudos". Em
um consultório de psicanálise, falamos muito. O assunto
impõe necessariamente diálogo. Mas podemos também
estar na emoção, o conflito, a comédia e mesmo
a ação (no sentido grego do termo, e não no do
Bruce Willis fazendo acrobacias dentro de um elevador). A cena de
gestalt, a cena de visualização, a cena de aprendizagem
do humor não são somente cenas de diálogos. O
que podemos legitimamente repreender a um autor é de dizer
coisas ao invés de mostrá-las. É possível
que eu faça isso em Oui, mais
. Penso, por
exemplo, no momento em que Sébastien explica seus sentimentos
no carro. Se eu o faço, aí sim, eu errei e meu tiro
saiu pela culatra. Mas o diálogo não implica em coisas
ditas. Podemos também mostrar com diálogos. Dou diversos
exemplos nos meus livros. Enfim, a onipresença dos diálogos
é em nada um critério.
E no que acredita ter acertado em
Oui, mais... ?
Pergunta tão difícil de responder quanto
a anterior. Segundo espectadores adolescentes, consegui dar conta
do universo da puberdade; segundo espectadores psicanalistas, do de
uma análise. O que não é pouca coisa. Richard
Fisch, o diretor do Brief Therapy Center de Palo Alto acreditou até
que Gérard Jugnot fosse um verdadeiro psicanalista e não
um ator! Uma coisa me agradou muito: ver a que ponto o filme fazia
rir e sorrir. É claro, enquanto o escrevia, me divertia encontrando
gags ou situações cômicas mas após passar
vários anos escrevendo-o e mais um ano a fabricar o filme,
esqueci um pouco que elas podiam ser engraçadas. E quando as
primeiras projeções começaram, o público
me lembrou que havia humor. É bastante fascinante ver o aspecto
universal da comédia. Os Chineses que viram o filme (em Shanghai
e Hangzhou) reagiram formidavelmente bem! O topo foi atingido no Festival
de Richmond onde o filme foi projetado em um imenso teatro de 1.400
lugares, lotado. As pessoas riam e aplaudiam em cena aberta, durante
a projeção. Para alguém que considera a comédia
como o tratamento mais nobre e mais difícil, é uma bela
recompensa. E mais, ver seu filme em uma sala que ri, é como
uma viagem lisérgica, sem os efeitos secundários: mágico.
Foi natural, para alguém que
defende tanto o roteiro, passar para a direção?
Porquê não? São duas atividades diferentes, mas
não incompatíveis. Quando escrevemos algo de pessoal,
é até um movimento bastante natural querer colocá-lo
em imagens, nós mesmos. É o contrário, escrever
quando se é antes de tudo um diretor, que me parece menos evidente.
Ainda que, na França, ninguém se constranja
Tenho
amigos roteiristas que não conseguem se imaginar dirigindo
uma equipe e que preferem se manter roteiristas. Eu os entendo; mas
penso que estão errados. Todos os roteiristas deveriam fazer
ao menos um curta-metragem, ocasião de experimentar a direção.
Se além do mais, como eu, há um imenso prazer em trabalhar
com atores ou em juntar o quebra-cabeça sobre a mesa de montagem,
não se deve hesitar.
A recepção do filme foi satisfatória?
Me arrependo de não ter usado um pseudônimo pois a maioria
das pessoas que conheciam A dramaturgia viram o filme como quem tendo
uma armadilha. As vezes, por bem, aliás. Mas, a partir do momento
onde você recebe uma obra de arte com um a priori, ainda que
positivo, não se é mais autêntico e a experiência
fica prejudicada. Em relação ao resto, estou muito satisfeito
com a recepção dos que não me conheciam e que
apenas descobriram um filme entre outros.
Acredita que
seu livro tenha tido uma influência sobre o audiovisual francês?
Muito sinceramente, não tenho a menor idéia. Alguns
o pretendem. É algo que me parece difícil de estimar.
Há certamente hoje maior atenção ao roteiro (no
sentido da narrativa) do que existia há vinte anos na França.
A idéia, por exemplo, de que o roteiro pode ser ensinado e
ser dirigido por princípios fundamentais já quase não
é mais discutida (falo sobre o assunto no prefácio).
Mas graças a que, ou a quem?
A palavra "dramaturgia"
entrou com força no vocabulário da profissão.
Não era nem um pouco usual antes de 1994. Agora, é lido
e ouvido em todo lugar. Inclusive em outras áreas.
É verdade. Mas é só uma palavra. Acho que é
necessário tempo para que um livro influencie profundamente
seus contemporâneos. Entender uma coisa e aprendê-la são
dois processos distintos, o primeiro é relativamente fácil;
já o segundo pode levar uma vida. Em outros termos, ler um
livro sobre a redação dramática não basta,
seja ele qual for, para se tornar imediatamente um bom autor dramático
ou um bom script doctor. Aliás, isso vale para todos os tratados
e em todos os assuntos. Se bastasse ler Laurence Pernoud ou Françoise
Dolto para cuidar direito de uma criança!
E mesmo assim, é
o que muitos executivos do audiovisual pensam. Eles leram seu livro
e se imaginam sabendo avaliar um roteiro.
Isso é preguiça e uma farsa. É aliás
por isso que desenvolvi a parte consagrada à avaliação
de roteiro. E ainda assim, se forem ler meus livros sem conhecimento
das obras citadas e principalmente sem que haja confronto entre
conteúdo e experiência concreta, só será
retida uma ínfima parte. A informação não
se transformará em conhecimento. Isto pode até dar
em desastres pelo risco de apenas pegar as grandes linhas e de esquecer
as nuanças. Mesmo para "ler" um roteiro, é
preciso talento, competências, e disposições
naturais.
O que deveriam fazer os autores confrontados À
dramaturgia que algum executivo lhes joga na cara como um argumento
de autoridade?
Pois precisamente conhecer (no sentido de aprender) as nuanças
da arte do livro. Ser capaz de dizer a esse executivo: "OK,
Lavandier (ou Aristóteles, Robert McKee, ou quem quer que
seja) diz isso, mas, se virarem a página, encontrarão
uma nuança, um contra-exemplo; não é tão
simplista quanto pensam".
Quais são seus sonhos mais loucos?
Enquanto autor de A dramaturgia, seria de ajudar cada
cultura a veicular um pensamento profundo e pessoal em forma de
entretenimento, e no caso do audiovisual, à resistir ao todo-americano.
Como podemos resistir ao cinema americano?
Uma obra de arte é esquematicamente constituída de
dois elementos: um pensamento e sua tradução. Um pensamento
só é rico se for pessoal. Não é uma
condição determinante mas é claramente uma
condição necessária. Por isso, defendo a idéia
de projetos locais, regionais, com sensibilidade específica.
A tradução, por outro lado, deve ser universal. Sem
isso o autor sueco não conseguirá tocar o espectador
argentino e, pior ainda, arriscará de nem tocar o espectador
sueco que não tem a mesma sensibilidade que ele, que não
faz parte do mesmo clube.
O que é uma tradução universal e
eficaz?
É aquela que se apóia num fundo comum para a humanidade.
Ela é presente em numerosas formas de narrativa, de um continente
ao outro, de uma época à outra. É o que os
Americanos aprenderam tão bem a fazer se inspirando do teatro
europeu, mesmo se seu pensamento não está sempre à
altura. Defendo, há 25 anos, dois posicionamentos fundamentais:
1- o know-how dos Americanos não é de sua propriedade
exclusiva. É velho de milhões de anos. O reencontramos
no teatro e na tradição oral. Ele pode ser aprendido
e usado por qualquer ser humano; 2- o conhecimento e o domínio
deste know-how respeitam a alma dos autores, a espontaneidade de
suas criações e a especificidade de suas culturas.
Assim, guardando sua sensibilidade, é possível fazer
obras divertidas e profundas - não é incompatível!
-, obras que seduzem seus cidadãos, que se exportam, que
veiculam mais sentido que um bom número de filmes americanos.
São essas ferramentas que ambiciono propor em A dramaturgia.
E seu sonho mais louco enquanto cineasta?
Seria de ter a carreira de alguém como Charles Chaplin, de
conseguir emocionar e divertir milhões de pessoas ao longo
do tempo.
Nada mal!
Ah, me foi pedido o sonho mais louco. Mas, na verdade - há
sempre um "mas"! -, as coisas sobre as quais mais trabalho
não são profissionais. Eu não trocaria uma
relação harmoniosa com minha mulher e meus filhos
por todo o gênio e sucesso de Chaplin. Agora, se você
me diz que posso ter os dois, eu assino
Senhor Mefistófeles
[risos].
Entrevistado por Patrice Saint-Omer
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