CONVERSA COM YVES LAVANDIER

autor de A dramaturgia

 



A quem pensava se dirigir ao escrever A dramaturgia ?
Em prioridade para os dramaturgos e roteiristas. Mas também para os parceiros nas artes da dramaturgia: atores, diretores, produtores, desenhistas (no caso do desenho animado ou das histórias em quadrinho), etc. E a todos aqueles que, curadores, seletores, jurados ou leitores, concedem ou recusam subvenções baseados na leitura dos textos dramáticos sem, muitas vezes, possuir competências para fazê-lo. E afinal, tendo concebido A dramaturgia como uma leitura acessível, creio que ela pode interessar todos os espectadores curiosos de melhor entender o teatro, o cinema ou a história em quadrinho, assim como as relações que essas artes mantêm com a vida.

O grande princípio do livro é a modelagem.
De fato. Examino a obra dos grandes autores dramáticos, sem elitismo - trato Anton Tchekhov bem como Lowell Ganz e Babaloo Mandell - e tento responder três perguntas: 1) do que são feitas as obras dramáticas? Por que são feitas de tal forma? E o que é necessário para se escrever uma? A questão do por que sempre me pareceu capital. Creio que não podemos nos contentar em dizer: "Vejo isto no repertório, portanto deduzo uma regra". Prefiro dizer: "Vejo isto no repertório; me pergunto o porquê e se acho que a razão desta presença é válida e lógica então deduzo uma regra". Chego a pensar que quanto mais a justificação carrega sentido, mais o mecanismo descrito tem chances de ser justo e útil.

Cerca de 1.400 obras são citadas como exemplo: peças de teatro, óperas, longas-metragens, curtas-metragens, sketches, episódios de seriado de televisão, álbuns de história em quadrinhos. O volume é enorme.
Sim, pode parecer muito. Veio assim e eu não me freei. Ao contrário, quis propor ao leitor uma grande viagem no repertório dramático. Isso dito, existe uma pequena centena de obras que são mais recorrentes. Convido aliás vivamente o leitor a conhecer um mínimo dessas obras antes de ler A dramaturgia (ver a lista completa). Isto tornará nossa viagem ainda mais enriquecedora.

Há inclusive referências ao circo.
Gosto muito do circo. É um lugar onde a dramaturgia tem seu lugar, e não só nos sketches de palhaço.

Como nasceu A dramaturgia ?
Entre 1983 e 1985, estudei cinema na Columbia University, em Nova York. Aprendi muito, especialmente sobre a redação de roteiro e direção. Também filmei numerosos curtas-metragens. Voltei pra França no verão 1985. Comecei a ganhar a vida como roteirista. Em seguida, em 1987, comecei a animar oficinas de redação. A idéia de base é fazer os participantes escreverem, sem dúvida; mas eu reservava uma pequena parte teórica. Rapidamente, meus alunos me pediram para botá-la à limpo. O resultado inicial, foi uma apostila de oito páginas. Seria o primeiro esboço do que viria a se tornar A dramaturgia. Ainda a guardo comigo esse livreto. Mas foi somente quando a apostila ultrapassou o número de cem páginas, que a idéia me ocorreu de fazer um livro. A dramaturgia é portanto fruto dos meus estudos do cinema, das minhas atividades de roteirista, dramaturgo e pedagogo e de bons vinte anos de alimentação cultural.

A obra poderia ter sido escrita por outro que não fosse um autor dramático?
Certamente não da mesma forma. O fato de conhecer internamento processo da escrita dramática influenciou obrigatoriamente a minha visão.

Sentimos, através de seus exemplos, que o cinema é mais presente na sua formação do que o teatro. São citados as grandes peças do repertório, mas não muita coisa sobre o teatro contemporâneo, digamos a partir de 1950.
Não é totalmente verdade. Amadeus, À espera de Godot, Roberto Zucco e Por tudo e por nada fazem parte das 80 obras de referência e cito outras peças contemporâneas em exemplo de forma mais pontual. Penso em L'atelier, Célimène et le cardinal, Le chant de la baleine abandonnée, Croisades, Elvire Jouvet 40, Mamie Ouate en Papoâsie, Rinoceronte, Traição. Falo também com muita freqüência de Entre quatro paredes, Morte de um caixeiro viajante, A vida de Galileu que são peças muito modernas, mesmo não sendo consideradas estritamente contemporâneas. Por outro lado, eu mesmo escrevi algumas peças, essencialmente teatro de fantoches, e dirigi para o teatro. Como anedota, já até fiz o papel do Mensageiro em uma encenação de Antígona, de Jean Anouilh, em Nova York. Então conheço o teatro ao mesmo tempo como espectador e como artista. Mas reconheço que minha atividade principal é orientada para o cinema e que vou mais ao cinema do que ao teatro. Tenho também a impressão que apesar de sua jovem idade, o cinema permite, mais e melhor, brincar com os mecanismos da narração dramática, do que o teatro. Tudo isso explica talvez esta impressão.

Então, digamos que não há em seu livro muita coisa sobre o teatro experimental destes últimos anos.
É verdade, já fui criticado por isso. Mas a verdade é que também não há no meu livro muita coisa sobre o cinema experimental. E não por uma questão de data. A cantora careca que data de 1950 é mais experimental que Roberto Zucco escrito quarenta anos mais tarde. A dramaturgia não é uma enciclopédia sobre as artes da dramaturgia, com a obrigação de comentar exaustivamente todas as formas de teatro, desde Thespis à Bob Wilson, passando pelos jatos de ovos podres em Nanterre nos anos 70. Trata-se de um tratado sobre os mecanismos aristotélicos. Defendo uma dramaturgia aristotélica por várias razões importantes, a principal sendo que a vida (humana ou outra) é ela mesma aristotélica. A visão de Aristóteles ao funcionamento humano, seja ao nível do biológico e do sociológico, seja ao nível do psicológico. Apesar de (ou posteriormente a) Freud, a AIDS, a bomba atômica, os crimes contra a humanidade, o world wide web, a amizade franco-alemã, os videogames, os atentados de 11 de setembro de 2011, e sabe-se lá mais o quê, o fato é que este funcionamento não mudou desde os contemporâneos de Eschyle. Alguns assuntos e alguns obstáculos mudaram, sim, mas não o jeito de vivê-los no mais fundo de nós mesmos. Enfim, A dramaturgia é um livro sobra a forma de contar uma história simples com um começo, um meio, e um fim, o que, cá entre nós, já é consideravelmente difícil. Os que pensam que é melhor conhecer as regras antes de infringi-las podem ver utilidade na leitura do meu livro. Os outros não precisam de nada para fazer algo de genial.

Sentimos que não idolatra ninguém. Mesmo Hitchcock, por quem tem admiração, tem direito à algumas reservas. Ou Quanto mais quente melhor.
Sim, ou O Cid, Tartufo, Hamlet e muitos outros. Penso que não há obra ou autor intocável. Entendo que isso possa incomodar. Muitos amadores têm tendência à fabricar um panteão e a não mais o questionar. Eles se esforçam em seguida para tudo justificar em seus deuses, inclusive suas fraquezas, contanto que não se toque no que se tornou sagrado. Ele provavelmente aprecia que as obras de arte não sejam perfeitas. Mas algumas, inclusive no panteão, ganhariam em ser mais coerentes. Acho muito saudável não estar nem preso à um panteão e nem submisso ao fascismo dos "especialistas" e manter a autonomia mental de emitir reservas sobre os "clássicos". A meu ver, as duas palavras chaves, mesmo, os dois valores chaves são "autonomia" e "autenticidade". Ser autêntico, é estar em acordo com seu eu profundo e com seu sentimento. tantos cinéfilos gostam de algumas obras porque lhes foi dito que deviam gostar delas. Sobre A mulher que viveu duas vezes, um leitor veio à mim um dia e me agradeceu calorosamente. Entendi imediatamente do que estava falando. Ele nunca tinha ousado dizer que achava este filme chato. Os "especialistas" afirmavam que era uma obra-prima e que se não gostássemos de A mulher que viveu duas vezes (ou A regra do jogo ou Vida moderna ou Providence, éramos então taxados de imbecis e incultos. Com A dramaturgia, tenho vontade de dizer aos leitores: não se deixe desviar do essencial, nem por mim nem pelos outros. O que conta, é ser autêntico e autônomo.

Aconteceu de citar obras ou autores para agradar os outros, gregos e troianos?
Não, de modo algum. O repertório é tão repleto de exemplos eloqüentes que posso me dar ao luxo de citar as obras que aprecio.

A dramaturgia é então um livro subjetivo.
Absolutamente! E como poderia não ser? Penso que lendo A dramaturgia se aprende tanto sobre minha pessoa, quanto sobre os mecanismos da narrativa. Sobre a importância que concedo à infância, às emoções, ao humor, ao desenvolvimento pessoal. Sobre minhas necessidades de sentido e estrutura, que beira a neurose. Por isso convido cada leitor à tomar aquilo no que encontra um eco dentro de si, o que pode ajudá-lo, e a deixarem o resto. Enfim, mais uma vez, a serem autônomos. O leitor que mais me assusta não é o que não gosta do meu livro, é aquele que o adora incondicionalmente, sem personalidade, sem espírito crítico. É aliás verdade para todos os livros e todos os sistemas. Dito isto, aquele que o odeia sem tê-lo lido - He sempre alguns assim - também não chega a ser o que espero.

Seu leitorado é repartido de forma igual entre profissionais do audiovisual e profissionais do teatro?
Acredito que não. Primeiro tenho os amadores e os profissionais da história em quadrinhos entre meus leitores. Depois, é provável que o cinema prevaleça. Por várias razões: ele é mais freqüentado e fascina mais do que o teatro. Isso pode ser lastimável, mas é fato. E, no entanto, que A dramaturgia permite a alguns cinéfilos ou amantes de história em quadrinhos descobrirem Sófocles, Ibsen ou Brecht, me deixa encantado. Há uma riqueza e uma humanidade extraordinária dentro do repertório teatral. Idem se meu livro conduzir profissionais do teatro a descobrirem Taniguchi ou Os Sopranos.

Em seu livro, são utilizadas muitas expressões como "ainda que", "dito isso", "contudo", "por outro lado".
É verdade. Deve ser meu lado esquizofrênico [risos]. Na verdade, adoro convicções, sejam as minhas ou as dos outros, mas tenho muito medo das certezas. Então quando tomo uma posição clara e determinada, me interesso freqüentemente pelos contra-exemplos, por todos os elementos que irão nuançar meus propósitos, torná-los menos simplistas. Gosto de exceções. Elas participam da riqueza e sutileza das regras. Contudo, insisto que o único meio de complexificar, ao meu ver, é partindo de uma base unívoca, para não correr o risco de tornar o pensamento complicado, e não complexo. É, aliás, dessa maneira que, penso, deveríamos escrever uma obra dramática: partindo de uma base simples.

Já foram vendidos 25.000 exemplares da versão francesa de A dramaturgia, que já foi traduzida em italiano (L'ABC della drammaturgia), em espanhol (La dramaturgia), em inglês (Writing drama) e agora em português. Tal sucesso era esperado?
Eu senti no começo dos anos 90 que o que iria se tornar A dramaturgia era apreciado sob sua forma de folheto e servia como ferramenta de apoio. Acreditei então no longo termo.

A que é atribuído o sucesso de A dramaturgia?
Essencialmente, ao boca-a-boca.

O fato de ter dirigido uma primeira longa-metragem (Oui, mais...) mudou sua maneira de considerar o trabalho de autor dramático?
Não muito pois eu era roteirista e diretor (de curtas-metragens) e até diretor de teatro de fantoches antes de escrever A dramaturgia. Então não podemos dizer que passei da teoria para a prática. A direção de Oui, mais… confirmou coisas que eu já sabia por já as ter vivenciado nos meus curtas-metragens. Confirmou, por exemplo, que a passagem do texto à imagem e à encenação por atores muda a percepção do roteiro e pode levá-lo a ser reescrito durante todas as etapas da fabricação do filme, da preparação à mixagem passando pela filmagem. Sugiro os francófonos a edição do roteiro de Oui, mais… que conta justamente o processo de reescrita durante filmagens e montagem do filme.

É dito que julgar os outros, mesmo que de forma construtiva, nunca o deixou muito à vontade.
Sim, porque julgar os outros é se colocar numa posição de superioridade, o que já me parece um contra-senso! Aqueles que produzem sentido, prazer e emoções, ainda que não acertem , me parecem bem acima daqueles que produzem julgamentos. Sei muito bem que um artista que oferece ao público seu trabalho se expõe aos comentários, é a regra do jogo. Isso não impede que a posição de juiz me é desconfortável e que prefiro a de autor. Paradoxalmente, esse lugar me parece mais humilde. É aliás por isso que me esforço em ser mais construtivo e entusiasta em A dramaturgia e de não cair na crítica baseada em gosto pessoal. Penso enviar muito mais ondas positivas que negativas.

É dito também que com Oui, mais… foram aplicadas as lições que são dadas em A dramaturgia mas que é mais fácil falar do que fazer.
Sim, isso não é uma grande descoberta. Embora em meus roteiros eu tenho algumas falhas eu denuncio em meu livro, penso ter respeitado uma boa parte das regras. Em todo caso, eu tento. O que posso dizer é que escrever A dramaturgia e animar os ateliês de redação me ajudaram a me tornar um melhor autor dramático, ou um menos ruim, se preferirem. Isso, é indiscutível. E mais, continuo a aprender. Atualmente, aprendo muito sobre o trabalho de caracterização. E sobre a metodologia. Acredito cada vez mais nos estados modificados de consciência. Não só para afinar a consciência da minha vida mas também para desbloquear uma escrita. Quando fico preso em uma cena ou na busca de uma idéia específica, no lugar de obstinar-me, vou correr. Frequentemente, a resposta vem sozinha, destilada na endorfina.

O que pensa ter errado no roteiro de Oui, mais… que poderia chocar o autor de A dramaturgia?
Tenho a intuição de ter errado coisas mas não é fácil ter uma perspectiva global do seu bebê. É mais fácil diagnosticar o trabalho alheio! Penso que errei na caracterização da mãe. Não a amei o suficiente, não a entendi o suficiente, não a levei a sério o suficiente. Preferi zombar dela. Pensei evitar uma queda no patológico ou ser demasiado pesado, mas na realidade, com o recuo, percebo que me deixei levar pelo acerto de contas, o que não é uma boa idéia em dramaturgia. Há de se amar e perdoar todos os personagens. Neste contexto, a missão de Alix de Konopka não foi fácil e lhe sou grato pelo que ela me ofereceu.

Em A dramaturgia, é explicado que o diálogo deve ser reduzido ao mínimo e que é a mais fraca ferramenta para passar informações. Todavia, Oui, mais… inclui muitos diálogos.
O diálogo é a parte emergente do iceberg, inclusive no teatro. Uma profusão de diálogos, não significa que não há nada mais além dele. Em O jantar de palermas, Doze homens em fúria e Autópsia de um crime, temos muitos diálogos. Mas há também todo um trabalho de estrutura e de caracterização. Também é o caso em Oui, mais….
Sejamos claros, não me comparo aos grandes. O cito para dizer que, até com eles, "muitos diálogos" não significa "apenas diálogos". Se é verdade com eles, pode ser verdade com os outros, seja qual for o seu nível.
Sobre o diálogo, hesito, entre uma posição delicada para defender, e freqüentemente mal entendida. E, para melhorar as coisas, o diálogo que, de fato, é a linguagem menos potente da dramaturgia, é, ao mesmo tempo, uma ferramenta super valorizada e subestimada. Super valorizada por alguns (os adoradores de Sacha Guitry, Michel Audiard, etc. além dos autores de telenovelas medíocres) e subestimada por outros (todos os que só juram pela imagem). Não se deve descansar sobre os diálogos o que torna uma cena artificial e soa falso. Ou ainda, contamos uma história de sobrevivência na qual estamos no nível mais baixo das necessidades humanas, no nível animal. Relembro, além disso, que os diálogos (as vezes, muitos diálogos) já estavam presentes nos filmes ditos "mudos". Em um consultório de psicanálise, falamos muito. O assunto impõe necessariamente diálogo. Mas podemos também estar na emoção, o conflito, a comédia e mesmo a ação (no sentido grego do termo, e não no do Bruce Willis fazendo acrobacias dentro de um elevador). A cena de gestalt, a cena de visualização, a cena de aprendizagem do humor não são somente cenas de diálogos. O que podemos legitimamente repreender a um autor é de dizer coisas ao invés de mostrá-las. É possível que eu faça isso em Oui, mais…. Penso, por exemplo, no momento em que Sébastien explica seus sentimentos no carro. Se eu o faço, aí sim, eu errei e meu tiro saiu pela culatra. Mas o diálogo não implica em coisas ditas. Podemos também mostrar com diálogos. Dou diversos exemplos nos meus livros. Enfim, a onipresença dos diálogos é em nada um critério.

E no que acredita ter acertado em Oui, mais... ?
Pergunta tão difícil de responder quanto a anterior. Segundo espectadores adolescentes, consegui dar conta do universo da puberdade; segundo espectadores psicanalistas, do de uma análise. O que não é pouca coisa. Richard Fisch, o diretor do Brief Therapy Center de Palo Alto acreditou até que Gérard Jugnot fosse um verdadeiro psicanalista e não um ator! Uma coisa me agradou muito: ver a que ponto o filme fazia rir e sorrir. É claro, enquanto o escrevia, me divertia encontrando gags ou situações cômicas mas após passar vários anos escrevendo-o e mais um ano a fabricar o filme, esqueci um pouco que elas podiam ser engraçadas. E quando as primeiras projeções começaram, o público me lembrou que havia humor. É bastante fascinante ver o aspecto universal da comédia. Os Chineses que viram o filme (em Shanghai e Hangzhou) reagiram formidavelmente bem! O topo foi atingido no Festival de Richmond onde o filme foi projetado em um imenso teatro de 1.400 lugares, lotado. As pessoas riam e aplaudiam em cena aberta, durante a projeção. Para alguém que considera a comédia como o tratamento mais nobre e mais difícil, é uma bela recompensa. E mais, ver seu filme em uma sala que ri, é como uma viagem lisérgica, sem os efeitos secundários: mágico.

Foi natural, para alguém que defende tanto o roteiro, passar para a direção?
Porquê não? São duas atividades diferentes, mas não incompatíveis. Quando escrevemos algo de pessoal, é até um movimento bastante natural querer colocá-lo em imagens, nós mesmos. É o contrário, escrever quando se é antes de tudo um diretor, que me parece menos evidente. Ainda que, na França, ninguém se constranja… Tenho amigos roteiristas que não conseguem se imaginar dirigindo uma equipe e que preferem se manter roteiristas. Eu os entendo; mas penso que estão errados. Todos os roteiristas deveriam fazer ao menos um curta-metragem, ocasião de experimentar a direção. Se além do mais, como eu, há um imenso prazer em trabalhar com atores ou em juntar o quebra-cabeça sobre a mesa de montagem, não se deve hesitar.

A recepção do filme foi satisfatória?
Me arrependo de não ter usado um pseudônimo pois a maioria das pessoas que conheciam A dramaturgia viram o filme como quem tendo uma armadilha. As vezes, por bem, aliás. Mas, a partir do momento onde você recebe uma obra de arte com um a priori, ainda que positivo, não se é mais autêntico e a experiência fica prejudicada. Em relação ao resto, estou muito satisfeito com a recepção dos que não me conheciam e que apenas descobriram um filme entre outros.

Acredita que seu livro tenha tido uma influência sobre o audiovisual francês?
Muito sinceramente, não tenho a menor idéia. Alguns o pretendem. É algo que me parece difícil de estimar. Há certamente hoje maior atenção ao roteiro (no sentido da narrativa) do que existia há vinte anos na França. A idéia, por exemplo, de que o roteiro pode ser ensinado e ser dirigido por princípios fundamentais já quase não é mais discutida (falo sobre o assunto no prefácio). Mas graças a que, ou a quem?

A palavra "dramaturgia" entrou com força no vocabulário da profissão. Não era nem um pouco usual antes de 1994. Agora, é lido e ouvido em todo lugar. Inclusive em outras áreas.
É verdade. Mas é só uma palavra. Acho que é necessário tempo para que um livro influencie profundamente seus contemporâneos. Entender uma coisa e aprendê-la são dois processos distintos, o primeiro é relativamente fácil; já o segundo pode levar uma vida. Em outros termos, ler um livro sobre a redação dramática não basta, seja ele qual for, para se tornar imediatamente um bom autor dramático ou um bom script doctor. Aliás, isso vale para todos os tratados e em todos os assuntos. Se bastasse ler Laurence Pernoud ou Françoise Dolto para cuidar direito de uma criança!…

E mesmo assim, é o que muitos executivos do audiovisual pensam. Eles leram seu livro e se imaginam sabendo avaliar um roteiro.
Isso é preguiça e uma farsa. É aliás por isso que desenvolvi a parte consagrada à avaliação de roteiro. E ainda assim, se forem ler meus livros sem conhecimento das obras citadas e principalmente sem que haja confronto entre conteúdo e experiência concreta, só será retida uma ínfima parte. A informação não se transformará em conhecimento. Isto pode até dar em desastres pelo risco de apenas pegar as grandes linhas e de esquecer as nuanças. Mesmo para "ler" um roteiro, é preciso talento, competências, e disposições naturais.

O que deveriam fazer os autores confrontados À dramaturgia que algum executivo lhes joga na cara como um argumento de autoridade?
Pois precisamente conhecer (no sentido de aprender) as nuanças da arte do livro. Ser capaz de dizer a esse executivo: "OK, Lavandier (ou Aristóteles, Robert McKee, ou quem quer que seja) diz isso, mas, se virarem a página, encontrarão uma nuança, um contra-exemplo; não é tão simplista quanto pensam".

Quais são seus sonhos mais loucos?
Enquanto autor de A dramaturgia, seria de ajudar cada cultura a veicular um pensamento profundo e pessoal em forma de entretenimento, e no caso do audiovisual, à resistir ao todo-americano.

Como podemos resistir ao cinema americano?
Uma obra de arte é esquematicamente constituída de dois elementos: um pensamento e sua tradução. Um pensamento só é rico se for pessoal. Não é uma condição determinante mas é claramente uma condição necessária. Por isso, defendo a idéia de projetos locais, regionais, com sensibilidade específica. A tradução, por outro lado, deve ser universal. Sem isso o autor sueco não conseguirá tocar o espectador argentino e, pior ainda, arriscará de nem tocar o espectador sueco que não tem a mesma sensibilidade que ele, que não faz parte do mesmo clube.

O que é uma tradução universal e eficaz?
É aquela que se apóia num fundo comum para a humanidade. Ela é presente em numerosas formas de narrativa, de um continente ao outro, de uma época à outra. É o que os Americanos aprenderam tão bem a fazer se inspirando do teatro europeu, mesmo se seu pensamento não está sempre à altura. Defendo, há 25 anos, dois posicionamentos fundamentais: 1- o know-how dos Americanos não é de sua propriedade exclusiva. É velho de milhões de anos. O reencontramos no teatro e na tradição oral. Ele pode ser aprendido e usado por qualquer ser humano; 2- o conhecimento e o domínio deste know-how respeitam a alma dos autores, a espontaneidade de suas criações e a especificidade de suas culturas. Assim, guardando sua sensibilidade, é possível fazer obras divertidas e profundas - não é incompatível! -, obras que seduzem seus cidadãos, que se exportam, que veiculam mais sentido que um bom número de filmes americanos. São essas ferramentas que ambiciono propor em A dramaturgia.

E seu sonho mais louco enquanto cineasta?
Seria de ter a carreira de alguém como Charles Chaplin, de conseguir emocionar e divertir milhões de pessoas ao longo do tempo.

Nada mal!
Ah, me foi pedido o sonho mais louco. Mas, na verdade - há sempre um "mas"! -, as coisas sobre as quais mais trabalho não são profissionais. Eu não trocaria uma relação harmoniosa com minha mulher e meus filhos por todo o gênio e sucesso de Chaplin. Agora, se você me diz que posso ter os dois, eu assino… Senhor Mefistófeles [risos].


Entrevistado por Patrice Saint-Omer

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